De acordo com os modelos climáticos do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), há mais de 90% de probabilidade de continuidade do fenômeno, que deverá atingir seu ápice de intensidade — podendo, inclusive, configurar um “Super El Niño” — entre a primavera de 2026 e o verão de 2027.
A principal característica desse fenômeno meteorológico é a ocorrência de precipitações superiores a 100 mm em curtos intervalos, acompanhadas de ventos fortes e frio intenso nos três estados da Região Sul.
A questão é: como esse cenário poderá afetar o mercado madeireiro?
O objetivo deste artigo não é analisar o mercado de madeira sob seus diversos aspectos econômicos ou comerciais, mas chamar a atenção para um ponto específico: os impactos do El Niño sobre a logística florestal, fator que poderá influenciar diretamente o abastecimento e os custos do setor.
A colheita florestal é hoje praticamente 100% mecanizada e consegue operar apenas até determinado limite de precipitação. Quando o solo atinge níveis elevados de encharcamento — condição que varia conforme a região — a circulação das máquinas dentro dos talhões torna-se inviável. Consequentemente, a retirada da madeira é comprometida, seja por meio de skidders, forwarders ou caminhões autocarregáveis, estes últimos ainda mais limitados nessas condições. Somam-se a isso os danos às estradas florestais e o aumento da necessidade de manutenção das rodovias pavimentadas utilizadas para o transporte.
Uma alternativa é a implantação de pátios intermediários em pontos estratégicos, preferencialmente próximos às rodovias pavimentadas, permitindo o armazenamento do maior volume possível de madeira durante os períodos de estiagem, que tendem a ser menos frequentes.
Essa solução, entretanto, é mais viável para grandes empresas florestais, que dispõem de maquinário, estrutura e recursos financeiros para sua implementação. Já os pequenos silvicultores e os empreiteiros responsáveis pelo corte e transporte enfrentam uma realidade diferente. Com menor capacidade de investimento, poderão ter dificuldades para manter o abastecimento, o que poderá comprometer uma parcela significativa da oferta de madeira no mercado.
É justamente esse cenário que merece reflexão. O mercado madeireiro é regido pela lei da oferta e da procura. Se as condições climáticas dificultarem a colheita e o transporte da madeira durante o inverno e a primavera, o abastecimento poderá ser reduzido, caso medidas preventivas não sejam adotadas.
Por outro lado, preparar-se para enfrentar esse período também exige investimentos. A implantação de pátios intermediários demanda aquisição ou locação de áreas, terraplenagem e revestimento do solo. Intensificar a produção nos dias de clima favorável também aumenta os custos operacionais. Da mesma forma, manter madeira estocada nos talhões por impossibilidade de transporte gera perdas, enquanto a conservação das estradas florestais exigirá intervenções mais frequentes.
Diante desse cenário, cada empresa deveria avaliar cuidadosamente o impacto dessas variáveis em seu planejamento financeiro e operacional.
É razoável concluir, portanto, que o mercado de madeira poderá registrar aumento de preços. Os custos adicionais decorrentes das dificuldades operacionais precisarão ser absorvidos de alguma forma, e o repasse ao preço final tende a ser a alternativa mais provável. Assim, tanto a madeira destinada à produção de cavacos quanto a madeira de maior diâmetro, utilizada por serrarias e laminadoras, poderão sofrer reajustes ao longo desse período.
Mas de quanto poderá ser esse aumento?
Infelizmente, não há uma resposta precisa. Cada região apresenta características próprias de relevo, solo, infraestrutura e intensidade das chuvas, fatores que influenciam diretamente os custos das operações. Além disso, embora a meteorologia tenha evoluído significativamente, ainda não é possível prever com exatidão como o El Niño se manifestará em cada microrregião.
Uma certeza, porém, parece inevitável: as indústrias que dependem do abastecimento de madeira deverão enfrentar dificuldades, especialmente nos estados da Região Sul, com reflexos também em São Paulo e Mato Grosso do Sul. Como consequência, haverá aumento dos custos operacionais, que precisarão ser absorvidos ao longo da cadeia produtiva.
Os primeiros sinais desse movimento já começam a aparecer. Em algumas regiões do Paraná, por exemplo, o preço do cavaco já registra alta em razão das condições climáticas observadas desde o início do inverno.
Texto: Manoel Francisco Moreira
Imagem: Open IA
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