Conflito na região pressiona fretes, logística e mercados compradores, ampliando incertezas para exportadores brasileiros de produtos florestais
Por Manoel Francisco Moreira
A recente eclosão da guerra no Oriente Médio, que inicialmente parecia envolver apenas Irã, Estados Unidos e Israel, acabou se ampliando para grande parte da região e, como era de se esperar, já começa a produzir efeitos sobre a economia global. Particularmente no setor madeireiro, o portal Madeira Total buscou ouvir dirigentes de entidades representativas e empresários relevantes do segmento para compreender quais impactos são esperados — ou já começam a se manifestar — no comércio internacional de produtos florestais.
Foram entrevistados executivos de grandes empresas madeireiras e do setor de papel e celulose, que solicitaram sigilo quanto às suas identidades. Também participaram da consulta os diretores executivos de três importantes entidades do Sul do Brasil: Ailson Loper, da APRE; Mauro Murara Jr., da ACR; e Jorge Heineck, da AGEFLOR. O levantamento resultou em um conjunto de avaliações convergentes, que apontam preocupações semelhantes.
Entre os principais pontos levantados estão:
- A participação do Oriente Médio no mercado de produtos florestais brasileiros é significativa.
- Os Emirados Árabes Unidos figuram entre os principais compradores de produtos florestais da região Sul do Brasil.
- Madeira destinada à construção civil e à indústria de móveis está entre os principais itens exportados para esses mercados.
- Há temor generalizado quanto à disparada dos preços do petróleo, com impacto direto nos custos logísticos e no transporte marítimo.
- Os elevados gastos militares decorrentes do conflito podem reduzir investimentos e consumo em outras áreas, afetando a demanda por produtos florestais.
- O encarecimento do frete marítimo já começa a se tornar realidade para exportadores.
- Surgem dificuldades logísticas adicionais, como falta de contêineres e ausência de cotações de frete. Em alguns casos, empresas que solicitam valores a armadores sequer recebem resposta.
- Espera-se também aumento no custo de insumos utilizados no agronegócio, especialmente derivados de petróleo e insumos minerais.
- Estamos ainda nos primeiros dias do conflito, e o cenário internacional não permite vislumbrar uma interrupção iminente das hostilidades.
O setor madeireiro brasileiro, que já vinha enfrentando os efeitos do chamado “tarifaço” norte-americano, começava a perceber algum sinal de recuperação. No entanto, foi surpreendido pela escalada militar entre Estados Unidos/Israel e Irã — um episódio que evoluiu rapidamente e sem tempo para que empresas, mesmo aquelas indiretamente envolvidas, pudessem se planejar ou adotar estratégias preventivas.
Abaixo, alguns dados sobre as exportações paranaenses de produtos florestais para países do Oriente Médio, fornecidos pela APRE (Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal).
EXPORTAÇÕES TOTAIS
Os Emirados Árabes Unidos foram o 11º principal destino das exportações totais do Paraná em 2025, com US$ 55 milhões, representando 2,4% do total exportado pelo Estado.
CELULOSE
Emirados Árabes Unidos – 3º principal destino em 2025, com US$ 44,25 milhões
Egito – 7º lugar, com US$ 8,93 milhões
Jordânia – 12º lugar, com US$ 4,18 milhões
Líbano – 14º lugar, com US$ 3,85 milhões
MADEIRA SERRADA DE PINUS
Arábia Saudita – 3º principal destino em 2025, com US$ 13,9 milhões
Emirados Árabes Unidos – 5º lugar, com US$ 4,39 milhões
Omã – 15º lugar, com US$ 1,2 milhão
Catar – 16º lugar, com US$ 1,04 milhão
PAPEL
Arábia Saudita – US$ 20,5 milhões (2025)
PAINÉIS RECONSTITUÍDOS
Israel – US$ 3,75 milhões (2025)
IMPACTO IMEDIATO: PETRÓLEO, FRETES E LOGÍSTICA GLOBAL
Especialistas ouvidos pelo setor destacam que, em conflitos envolvendo o Oriente Médio, o primeiro reflexo costuma aparecer no mercado de energia. A região concentra alguns dos maiores produtores mundiais de petróleo e gás natural, e qualquer instabilidade geopolítica tende a pressionar os preços dessas commodities.
Quando o petróleo sobe, o efeito é imediato no transporte marítimo internacional, elevando o custo dos combustíveis utilizados pelos navios e, consequentemente, o valor dos fretes. Para exportadores brasileiros — especialmente os de produtos volumosos e de menor valor agregado, como madeira serrada — esse aumento pode reduzir competitividade nos mercados externos.
Além disso, períodos de instabilidade internacional costumam provocar reorganização das rotas marítimas, atrasos logísticos e escassez de contêineres, fatores que ampliam ainda mais as dificuldades para empresas exportadoras.
UM NOVO FATOR DE INCERTEZA
Mesmo considerando apenas os dados do Paraná como referência, é possível dimensionar a preocupação existente no setor diante da evolução do conflito no Oriente Médio e de seus potenciais impactos sobre o comércio internacional de produtos florestais.
Para um segmento altamente dependente da exportação e da estabilidade logística global, guerras e tensões geopolíticas representam sempre um fator adicional de risco. No momento em que o setor começava a buscar alternativas para superar dificuldades recentes no comércio internacional, surge agora um novo elemento de incerteza.
Resta acompanhar atentamente os desdobramentos do conflito e torcer para que a diplomacia internacional consiga conter sua escalada — antes que os impactos econômicos se ampliem ainda mais para o comércio global e, inevitavelmente, para a atividade madeireira brasileira.
Mini bio – Manoel Francisco Moreira
Manoel Francisco Moreira é profissional com longa atuação na cadeia produtiva da madeira, com experiência em desenvolvimento setorial, políticas públicas e silvicultura. Foi Diretor Executivo da Agência de Desenvolvimento da Cadeia da Madeira do Médio Rio Tibagi e colunista do Portal Madeira Total, onde analisa temas estratégicos ligados ao manejo florestal, indústria e sustentabilidade.
Créditos: Imagem produzida por IA
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