CONCEITO
Ao invés de déficit futuro de madeira, poderia ter sido usado o termo “apagão florestal”, porém este já se encontra desgastado por ter sido amplamente propalado e nunca ter acontecido.
Minha visão é que o déficit de madeira já está acontecendo, mas não de forma generalizada, e sim em nichos de mercado e de maneira regional.
ANÁLISE GERAL DO MERCADO
O consultor florestal Jefferson Mendes, assim como o empresário do ramo silvicultural/madeireiro Ronaldo Sella, enxergam nichos de mercado com problemas, conforme resumimos a seguir.
A área de Pinus do Sul (PR, SC e RS), com seus aproximados 1,9 milhões de hectares, vem diminuindo a olhos vistos, motivada pela falta de um mercado saudável. Há um desarranjo nos preços, provocado por acontecimentos internacionais. Por exemplo, o preço atual da madeira serrada é o mesmo de 2018. O problema tarifário dos U.S.A. derrubou em aproximadamente 30% a demanda por madeira mecanicamente processada. O pior cenário ficou com o setor de painéis, que caiu 38%.
Todavia, essa crise beneficiou os setores de celulose e painéis, pois a madeira não subiu de preço e, em alguns casos, até diminuiu.
Em meio a toda essa crise, há um olhar para o futuro. Segundo Marcelo Schmidt, do Index, prevê-se aumento da demanda por madeira sólida e fibras celulósicas, em substituição a materiais não renováveis, segundo a FAO, da ordem de 272 milhões de m³ até 2050. Especialistas da área de energia renovável enxergam na biomassa (resíduos florestais, carvão e outros materiais lenhosos) um futuro promissor a curto prazo.
Apesar dos acontecimentos, apenas a madeira serrada de Pinus gerou receita de US$ 662,1 milhões em 2025. Todavia, o setor madeireiro brasileiro (excluindo papel e celulose) encerrou o ano de 2025 com queda de 3% nas exportações, que totalizaram US$ 1,6 bilhão.
(Fonte: Relatório Anual do IBÁ, 2025)
FLORESTAS CATIVAS
Vejamos alguns dados interessantes. Em 2025, o setor de florestas plantadas brasileiro alcançou a cifra de 10,7 milhões de hectares, ou seja, 700 mil hectares a mais que no ano anterior, representando um recorde. Desse total, 77% correspondem a eucalipto.
Agora, analisemos a distribuição da área plantada por proprietários:
- Indústria de celulose e papel: 38%
- Produtores independentes: 34%
- Setor siderúrgico: 10%
- TIMOs: 8%
- Outros: 10%
Fonte: Relatório Anual do IBÁ, 2025.
Observa-se, portanto, que dos 10,7 milhões de hectares, 56% da área são de forma cativa, ou seja, estão nas mãos de proprietários com uso próprio. Incluí os 8% das TIMOs, embora essas organizações possam vender madeira a qualquer comprador. Os produtores independentes representam 34% da área e é deles que deve sair a madeira que abastecerá a indústria de madeira mecanicamente processada. Devido à queda dos preços das toras, acredita-se que 50% desse volume esteja sendo destinado à indústria de celulose.
Existe ainda a situação de que esses 34% não estão distribuídos harmonicamente no País, o que significa superoferta em alguns locais e escassez em outros. Isso faz com que o mercado apresente comportamento desconexo; por exemplo, o Pinus em SC é mais barato do que no centro-norte do PR.
O que se consegue enxergar é que o mercado deverá se ajustar de acordo com as circunstâncias regionais, e muitas empresas produtoras de madeira mecanicamente processada, que não tiveram visão de futuro ao adquirir ativos florestais, encerrarão suas atividades por falta de madeira ou pela impossibilidade de absorver os custos.
O “apagão”, conforme algumas previsões, não deve acontecer; porém, as dificuldades de abastecimento da indústria madeireira aumentarão ao longo dos próximos anos. Isso significa que o mercado deverá se ajustar à nova realidade que se avizinha.
O futuro mostra tendência de valorização da madeira fina (plantios de curto prazo), destinada tanto à biomassa quanto à celulose.
Plantar florestas em áreas economicamente viáveis sempre será, portanto, um bom negócio.
Texto: Manoel Francisco Moreira – Consultor Florestal
Imagem: divulgação
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