Da floresta à cidade: como a madeira engenheirada se conecta à agenda da COP30

*Por Ana Belizário

Nos arredores de Belém, palco da COP30 que será realizada neste mês, as cidades são chamadas a entregar mais do que compromissos. Precisam traduzir em prática o que se exige para a transição ecológica urbana. A adoção de materiais de construção de baixo impacto, como a madeira engenheirada, é parte essencial desse movimento.

Estudos recentes da Yale School of the Environment mostram que a utilização de produtos em madeira engenheirada, como painéis de madeira laminada cruzada (CLT) ou madeira colada lamelada (MLC), pode reduzir de 25,6 a 39 gigatoneladas de CO₂ equivalentes no ciclo de vida de edifícios urbanos, caso sejam adotados entre 30% e 60% dos novos edifícios até o ano de 2.100. Outro dado, da Mann Publications, traz que o uso da madeira permite reduzir as emissões incorporadas em estruturas civis em cerca de 30% a 50% em comparação com concreto ou aço.

Diante desse cenário, quando falamos de espaços públicos urbanos como praças, parques, passarelas e áreas de convivência, a escolha da madeira engenheirada deixa de ser apenas estética ou simbólica para assumir papel estratégico na agenda climática das cidades.

As cidades enfrentam o desafio de serem mais humanas. Precisamos de espaços que acolham, aproximem e promovam o convívio, especialmente em áreas públicas, onde a vida urbana se expressa de forma mais intensa. É nesse contexto que a madeira engenheirada vem se consolidando como um material transformador, capaz de devolver à paisagem construída a leveza e o calor da natureza.

Em praças, parques, passarelas e áreas comuns, a madeira tem se mostrado uma aliada poderosa na criação de espaços de encontro. Sua presença modifica a percepção do ambiente urbano, suaviza o concreto, convida à permanência e resgata a sensação de pertencimento. A textura, o aroma e o conforto visual da madeira criam uma atmosfera que favorece o bem-estar coletivo e o diálogo entre arquitetura e natureza.

A experiência recente de requalificação de espaços públicos em São Paulo demonstra essa força de maneira concreta. No Parque do Carmo, na zona leste, a nova estrutura recreativa com 1.445 m² de madeira engenheirada prova que é possível unir sustentabilidade, desempenho técnico e impacto positivo para a comunidade. Quiosques, vestiários e arquibancadas foram pensados para integrar o projeto à vegetação local, criando um ambiente acolhedor e funcional.

O mesmo se observa no Parque Morumbi Sul, na zona sul da capital, onde pavilhões multiuso, passarelas e equipamentos acessíveis foram erguidos em madeira engenheirada de alta performance. O resultado é um espaço mais leve e sustentável, o primeiro equipamento público da cidade com esse tipo de estrutura. A agilidade da montagem, a limpeza da obra e o acabamento aparente de excelência reforçam uma nova lógica para a construção urbana, com menos ruído, menos resíduos e mais qualidade de vida para quem vive ao redor.

Essas transformações vão além da técnica. Elas representam um novo olhar sobre a função social da arquitetura. Quando um parque é revitalizado com madeira, ele se torna mais do que um espaço de lazer e passa a ser um ponto de encontro, de trocas e de pertencimento. A arquitetura, nesse sentido, é uma ferramenta de transformação social, aproximando pessoas e natureza, reduzindo impactos ambientais e promovendo uma cidade mais equilibrada.

A madeira engenheirada também tem encontrado espaço em empreendimentos privados de uso coletivo, como o Open Mall Praça Pitiguari, em Atibaia. Com mais de 1.300 m³ de estrutura em madeira, o maior volume já empregado em toda a América Latina, o projeto foi concebido para integrar tecnologia, sustentabilidade e bem-estar em um ambiente de convivência aberto, cercado por muito verde e pensado para gerar experiências.

Esses exemplos demonstram que a madeira não é apenas um material construtivo. É um vetor de mudança na forma como projetamos e vivemos nossas cidades. Em um momento em que o mundo busca por soluções mais sustentáveis e inclusivas, tema central da COP30, apostar em estruturas de madeira em espaços públicos é investir em uma cidade mais viva, uma cidade onde o encontro, o descanso e o pertencimento são parte da paisagem.

A madeira engenheirada nos convida a repensar o urbano, com a certeza de que o futuro das cidades será mais leve, natural e humano.

Ana Belizário é diretora da Urbem, indústria brasileira de madeira engenheirada de larga escala, que atua no setor da construção civil, focada em oferecer produtos e serviços inovadores e sustentáveis. Ela estará presente na COP30, em Belém, onde o tema da construção sustentável ganha destaque na agenda global.

 

By Temp7
Foto: Divulgação

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