Por Daniela Lubianca, advogada da Tahech Advogados
Na tumultuada imposição de tarifas comerciais do governo Trump sobre o Brasil determinada pelo governo Trump – seguida de recuos, ameaças de mais endurecimento das medidas e negociações –, ao menos um setor da economia local segue bastante prejudicado: a indústria da madeira.
Grande exportadora, essa atividade ainda busca ajustes e prospecta novos compradores pelo mundo para sobreviver, conforme podemos observar pelas demandas que chegam até os escritórios de advocacia especializados no atendimento a esse mercado, que movimenta cerca de R$ 30 bilhões ao ano e emprega milhares de trabalhadores. No Paraná, onde 40% das exportações tinham como destino os Estados Unidos, a situação é ainda mais crítica.
Enquanto a solução não vem, uma notícia mexeu com o cenário do comércio exterior brasileiro e trouxe ao menos uma perspectiva de melhoria a médio prazo para a indústria brasileira.
Fruto de mais de duas décadas de negociações, o acordo de parceria e livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia foi assinado formalmente no dia 17 de janeiro de 2026 e traz um cenário de oportunidades e desafios estruturais para o Brasil.
Um de seus objetivos é a redução e eliminação progressiva de tarifas alfandegárias sobre a maior parte dos bens e serviços entre os blocos, ampliando o acesso de produtos e serviços do Mercosul ao mercado europeu e vice-versa, reduzindo as tarifas para 91% dos produtos do Mercosul em 15 anos.
Além disso, incentiva a atração de investimentos estrangeiros e o fortalecimento da inserção internacional do Mercosul, bem como a modernização industrial e a maior integração às cadeias globais de valor.
O acordo entre o Mercosul e a União Europeia afeta diretamente o setor madeireiro, especialmente nos segmentos de madeira processada, painéis, papel, celulose e móveis.
Entre os impactos positivos, podem ser citados inicialmente a própria redução ou eliminação de tarifas na União Europeia. Com elas, os produtos brasileiros de madeira e derivados passam a enfrentar menor carga tarifária no mercado europeu.
A medida também aumenta a competitividade da madeira tropical e dos móveis brasileiros, hoje prejudicados por tarifas e barreiras comerciais.
A União Europeia é um dos maiores importadores globais de produtos florestais certificados e de alto valor agregado. Ampliar o comércio com esse bloco significa expandir as exportações de madeira beneficiada, painéis, móveis de madeira, papel e celulose.
Internamente, o acordo significa maior estímulo à industrialização da cadeia florestal, favorecendo produtos processados, e não apenas matéria-prima. Outro efeito benéfico é a atração de investimentos europeus em manejo florestal sustentável, reflorestamento e indústria de transformação no Brasil.
Há também impactos que representam desafios. A União Europeia impõe padrões rigorosos de combate ao desmatamento ilegal, origem legal da madeira, e rastreabilidade completa da cadeia produtiva. Pequenas e médias empresas podem ter assim que arcar com elevados custos elevados de adequação e obtenção de certificações. Empresas que não consigam comprovar manejo sustentável e regularidade ambiental e fundiária podem ficar fora do mercado europeu.
Por outro lado, a redução tarifária do acordo também permite a maior entrada de concorrentes: móveis e produtos europeus de madeira com alto design e tecnologia, o que pode pressionar indústrias nacionais menos competitivas.
Alguns observadores assinalam que as regras ambientais europeias podem funcionar como barreiras não tarifárias, dificultando exportações mesmo após o acordo. E o setor madeireiro é especialmente sensível a esse tipo de restrição.
De forma geral, o impacto do Acordo Mercosul-União Europeia tende a ser positivo no médio e longo prazo, especialmente para empresas formalizadas, cadeias certificadas e a indústria de madeira processada e móveis. Em contrapartida, aumenta a pressão por conformidade ambiental, exige políticas públicas de apoio à regularização e certificação e pode aprofundar desigualdades entre grandes e pequenos produtores.
Imagem: divulgação
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